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2008/12/15

Uma história alternativa e Microsoft-cêntrica do software livre

Embora muitas e muitas vezes tenha-se dito que "o software livre não é um movimento anti-Microsoft". Mas de certa forma é sim. E não necessariamente isto ilegitimiza o movimento. O software livre ganhou embalo na esteira das pisadas de bola da MS.

Em primeiro lugar, é curioso observar que em 1993, a MS tinha dois produtos bons que eram seus carros-chefes: Windows e Office. Hoje, em 2008, as vacas leiteiras da MS continuam sendo... Windows e Office. Tudo que aconteceu entre 1993 e 2008 não resultou em praticamente nada de terreno novo para a MS. Teria sido melhor poupar o dinheiro ou distribuir entre os acionistas. Aliás, é uma tremenda demonstração de como despejar dinheiro em cima de projetos, instituições ou regiões como os governos por aí gostam de fazer, não adianta nada; é preciso também um "estado de espírito" para transformar investimento em coisas novsa.

A MS fez tudo certo até 1995, quando lançou o Windows 95, um tremendo sucesso e um excelente produto para os padrões da época. Antes disso ela já tinha o Office, e dentro do Office um excelente produto chamado Access. Todo mundo queria desenvolver para Windows, muita gente sujeitou-se ao Win16 até a chegada do Windows 95.

Aí, alguma coisa aconteceu e a MS começou a querer dominar tudo e todos. Não bastava mais dominar os sistemas operacionais; ela queria dominar todos os nichos em volta disso. O início deste processo foi vergonhoso, quando a MS desdenhou a Internet em favor do Microsoft Network. Foi uma coisa tão amadora que ninguém botou fé.

A próxima vítima foi a Netscape, com o lançamento do Internet Explorer 3 integrado ao Windows. Neste caso a MS foi competente, pois lançou um browser melhor que o Netscape e incluído no Windows (quem hoje em dia imagina um SO sem browser incluído no pacote?). Apesar dos protestos, é discutível se a MS jogou sujo neste episódio. As maiores sujeiras vieram depois, com as tentativas de incompatibilizar-se com os padrões (HTML, Javascript) no intuito de forçar os Web designers a suportar apenas o IE. (Este esforço foi todo perdido quando a MS cometeu o mesmo erro que a Netscape -- deixou o IE 5.5 ou 6 sem atualizações por muito tempo, cimentando sua fama de bugado e inseguro).

Então veio a "guerra das linguagens" onde a MS jogou totalmente sujo. Primeiro, adquiriu o FoxPro com a clara intenção de descontinuá-lo (mas acabou não descontinuando tão cedo, talvez por medo das ações antitruste). Depois, começou uma guerra covarde contra a Borland e em particular contra o Delphi, que estava fazendo muito sucesso por volta de 96-97. Numa das propagandas sobre como o Visual Basic era melhor que o Delphi, a MS chegava a citar como desvantagem do Delphi o fato da Borland estar financeiramente mal das pernas. O ápice foi contratar o arquiteto-chefe do Delphi, que depois arquitetou o C#.

Uma coisa que já me intrigava na época: tanto o Delphi quanto o FoxPro rodavam exclusivamente em Windows. Qual o interesse da Microsoft em matar estes produtos? Já estava claro na época que vender Windows dava muito, muito mais dinheiro que vender Visual Basic.

Com estas ações que hoje sabemos que foram completamente idiotas, a Microsoft alienou seu principal ativo: os desenvolvedores da plataforma Windows. Na época, estava na moda a visão tecnocrática que o número de máquinas rodando Windows e o dinheiro na conta da Microsoft asseguravam sua hegemonia. Eram os frenéticos anos 90.

Hoje sabemos que a banda toca diferente. Uma plataforma é tão boa quanto os programas que existem para ela. E para haver programas, tem de haver desenvolvedores. Há 200 milhões de celulares Symbian e quase nenhum aplicativo para eles, porque o Symbian sempre maltratou os desenvolvedores.

Em paralelo a isso, os UNIXes comerciais caíram de qualidade, subiram de preço e amarraram-se ao hardware dos respectivos fabricantes, afundando junto com eles. Mas nem os UNIXes baseados em Intel escaparam do processo de apodrecimento, deixando seus desenvolvedores órfãos e aparentemente abrindo o caminho para o Windows NT, deixando todos entre a cruz e a espada.

Na esteira disso, cresceu o GNU/Linux, com uma plataforma relativamente amigável, gratuita, feita por desenvolvedores para desenvolvedores.

Na verdade, o problema das plataformas "pagas" e "fechadas" nunca foi o preço ou o fato de serem proprietárias. Elas afugentaram os desenvolvedores porque eram a) ruins; b) maltratavam o desenvolvedor. A ressurgência do Macintosh, que não é barato, não é livre e ainda por cima demanda hardware específico para rodar, prova anedoticamente este ponto.

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