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2009/07/10

Quem quer rir, tem de fazer rir

Tem toda essa polêmica aí sobre a lei Rouanet, que acaba beneficiando Ivete Sangalo e outros artistas que ao menos na minha visão estão claramente no ramo do "entertainment", e não da cultura. Não que o arrego^Wincentivo tenha sido ilegal. Vou discutir é a validade da Lei Rouanet como um todo.

Pessoalmente acho que incentivo pecuniário governamental à cultura deve restringir-se a financiar museus e bibliotecas públicas, que claramente não conseguem sustentar-se com ingressos mas todo mundo concorda que são essenciais. Cultura é, como o próprio nome diz, algo que "fermenta" naturalmente a partir de um aglomerado de pessoas, como em "caldo de cultura". Se não surge naturalmente, se depende de incentivo governamental, então não é cultura.

Num primeiro momento pode até parecer uma boa idéia dar uma "mãozinha" às manifestações culturais preexistentes, mas aí começam todos os problemas de não-linearidade que incentivos governamentais começam a criar. Você financia manifestação cultural X e não Y, aí a coisa X começa a inchar para manter o arrego, enquanto a coisa Y, inicialmente tão legítima quanto X, definha. No fim X vira X', X e Y desapareceram, e a cultura entrou pelo cano, dando lugar à pseudo-cultura mamando nas tetas do governo.

O pior mesmo desse processo é que não precisa haver desonestidade para ele acontecer. Muitas vezes há, mas muitas vezes é a simples não-linearidade que causa a distorção.

Ok, mas por que eu estou falando isto tudo no meu blog "profissional"? Será que estou escrevendo no blog errado? Não exatamente. Penso que existe um problema parecido com muitos projetos de software livre.

Atire a primeira pedra quem nunca viu um projeto de software livre que

a) persegue objetivos completamente alheios ao que os usuários realmente precisam?

b) pior, persegue objetivos que outros já provaram ser impossíveis?

c) mantém decisões de arquitetura absurdas, que prejudicam os usuários, por motivos ininteligíveis?

d) já deveria ter morrido ou jogado a toalha para um projeto concorrente e melhor, mas não o faz, confundindo concorrência e liberdade com duplicidade?

De uns tempos para cá eu suspeito que boa parte dessas mazelas é derivada dos "arregos" ou patrocínios que muitos projetos de software livre conseguem. Admitir derrota ou perseguir objetivos úteis de curto prazo põem em risco o arrego.

E como no caso da Lei Rouanet e da cultura, não é preciso haver desonestidade para isso acontecer. Não é característica humana chegar e dizer "ok, este meu projeto acabou/está obsoleto/foi obsoletado pelo outro projeto". O que mais se vê é gente insistindo numa tese muito depois de ela estar obsoleta: Richard Stallman, Fidel Castro, Delfim Neto (com a história da desvalorizacão do real, é, eu lembrei, gordo sinistro!).

Aí você junta o instinto normal do ser humano com o incentivo financeiro, e está criado o problema. Na verdade MESMO, esse problema acontece também com software proprietário, com facções dentro das empresas advogando esta ou aquela tecnologia, este ou aquele projeto. Os "agravantes" desse problema em relação ao software livre são: o "pool" de recursos destinados ao software livre é relativamente pequeno, o que faz do seu mau uso um problema muito mais grave; e o fato do software livre ser, em tese, um fenômeno cultural, que corre o risco de virar pseudo-cultural por conta do arrego.

É um equlíbrio muito delicado. Eu não tenho uma solução para o problema, mas o problema existe. Grandes projetos de software livre precisam de incentivo financeiro, muita coisa boa já saiu de ambientes onde os participantes gozavam de completa liberdade (como o BSD), mas por outro lado como é que se lida com o problema do mau uso desses recursos? Onde acaba o "bold" e começa o "stubborn"?

Vamos pegar alguns exemplos como estudo de caso.

Muita gente tem dito que o Mozilla deveria adotar o Webkit como engine HTML. Como é de se esperar, o pessoal do Mozilla nem cogita fazer isso. Por que? Será que essa percepção do Webkit ser melhor é um erro? É importante haver um segundo engine livre para competir com o Webkit? Existe um sentimento de nostalgia em relação ao Gecko? Abandonar o Gecko implicaria num "downsizing" no projeto Mozilla?

Note que eu não sei a resposta. Estou apenas apontando um caso onde a questão do patrocínio PODERIA prejudicar (não estou dizendo que REALMENTE prejudica, note-se!) uma decisão técnica.

Também não estou dizendo que o Gecko "nunca foi bom". Pelo contrário, é graças a ele que tivemos uma alternativa viável ao Internet Explorer. O ponto é que agora há uma outra alternativa que aparenta ser ainda melhor.

Depois você tem essa guerra KDE x GNOME. Até que ponto os projetos recusaram-se a colaborar por conta dos feudos de patrocínio, a grana jogando lenha na fogueira da teimosia?

Um exemplo que um amigo meu (não vou dizer que é o Rudá) vive citando é o PyPy, aquele projeto que desenvolve um interpretador Python escrito em Python. Depois de defender o projeto e agüentar MUITA gozação de outros amigos céticos, eu fico pensando: por que não buscar objetivos mais palpáveis e úteis para o Python tais como: JIT, threading melhorado, enfim, essas coisas que o tão criticado Java possui, e que até o Javascript está chegando lá?

Mas toda regra tem exceção. Uma coisa que nem dinheiro explica é o absurdo de o Linux não ter uma API estável para drivers de kernel. Na verdade não tem desculpa para não oferecer inclusive uma API de nível mais alto, à moda do IOKit. Simplesmente não consigo imaginar uma forma de fazer essa decisão estúpida de arquitetura render grana. Até onde vai minha visão, é só burrice e teimosia mesmo.

3 comentários:

leoboiko disse...

Bibliotecas, museus, e *cinemas*, por favor, que eu já perdi o cine ritz e não quero perder a cinemateca/cine luz também.

E eu defendo até a morte o trabalho de PyPy (que é só uma instância pythônica de algo que o pessoal de lisp sempre fez), sed-sokoban, ruby shoes, e todos os outros projetos enormemente complicados e sem utilidade nenhuma. Foda-se a utilidade. Utilitarismo pra mim morreu no século dezoito.

vfarias disse...

Essa questão da inexistência de API estável para drivers de kernel realmente é inexplicável. Na minha opinião é muito pior do que não gerar grana: ou gera desperdício de dinheiro, ou evita que determinados dispositivos tenham drivers.

Mas voltando ao assunto da cultura, tenho a impressão de que se o governo fosse investir apenas em bibliotecas, museus, etc, o Ministério da Cultura perderia a maior parte do orçamento e, por consequência, perderia poder. Se nem mesmo a maioria dos empresários sabe aproveitar os incentivos existentes, imagine o que ocorre com quem nem mesmo visa lucro...

EPx disse...

@leoboiko: eu também gosto desses projetos. Eu mesmo estou esperando ganhar na loteria para criar uns 2 ou 3 deles :)

A questão é eles roubarem recursos de projetos "sérios", porque o pool é pequeno.

Aposto que você como freelancer tem visto ou mesmo assumido projetos usando PHP. E certamente não gosta disso. Eu também não gosto do PHP, mas o fato é que os desenvolvedores do PHP trabalharam naquilo que os usuários *precisam*, performance inclusive.

Então não é assim tão simples, dizer "foda-se" para a utilidade como se isso não fosse com a gente.

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